‘Claustrofobia’ conquista 6º Experimentart; conheça os vencedores

Pegar o elevador é uma atividade trivial, mas curiosa: você simplesmente entra em uma caixa metálica, aperta um botão correspondente a um andar, e pronto: ela se encarrega de levá-lo para cima ou para baixo, à sua escolha.

Ou pelo menos é isso o prometido. Mas o que pode acontecer quando tal promessa não se realiza? Quando a máquina trai você, deixando-o, de repente, enclausurado com… as pessoas mais malucas da terra?

Eis o enredo que o esquete Claustrofobia explora e do qual, com seu tom humorístico, tira interessantes reflexões sobre o funcionamento de nossa psiquê em situações-limite como essa.

O trabalho venceu a sexta edição do Experimentart, que aconteceu entre agosto e outubro de 2019.

Antonio Carlos Pontes, Eduarda Bione, Hingridy Kaline, Douglas Farias, Ana Raquel Rodrigues da Silva foram os alunos que montaram e encenaram o espetáculo, sob orientação de Edson Aranha, ator e professor da Hipérion.

Para cada um deles, a vitória tem um significado especial. É o primeiro passo, com o pé direito, que indica suas qualidades e nortes no teatro.

O que eles acharam da experiência? Que aprendizados a participação no concurso lhes trouxe? Quais são as expectativas na carreira, depois de um reconhecimento como esse? Leia mais a seguir e descubra!

Encontrar-se no teatro

Em todo o processo de construção, o que mais surpreendeu Eduarda Bione, 27 anos, foi ver uma ideia concretizando-se pouco a pouco, tomando corpo até tornar-se uma obra coerente, com começo, meio e fim.  

“Desde o processo de criação do texto, até ver a transformação dele em uma peça, que vai tomando forma aos poucos, a gente vivencia muitos sentimentos. É uma experiência muito enriquecedora para nós, alunos, porque temos a oportunidade de vivenciar todas as etapas do processo criativo de uma peça de teatro”, nota ela.

Esta foi sua segunda participação no concurso da Hipérion. A primeira se deu quando fazia o curso livre, no primeiro semestre deste ano.

No esquete, ela foi a diretora e fez o papel de Dona Drica, uma hipocondríaca com mania de limpeza.

Para Bione, um dos maiores aprendizados está no que ela chama de “construção coletiva”, que significa “estar com um grupo de pessoas, criando, desenvolvendo, transformando. A gente descobre que, quanto mais a gente se encontra, mais ideias a gente tem, mais a gente transforma e sempre tem algo pra melhorar”, analisa.

Ela é formada em administração, mas foi mesmo com o teatro que ela se identificou. “Venho me encontrando muito nesse curso, de uma forma que não consegui me encontrar na minha graduação [em administração]”, compara.

Segundo ela, é a primeira vez que estuda algo que “realmente me interessa”. Por isso, está segura de que é nesse caminho que quer continuar: pretende finalizar o curso profissionalizante, tirar o DRT e seguir carreira.

A vida no escritório como administradora e a vida no palco como atriz profissional será, certamente, mais corrida. Mas será também mais feliz, e Bione sabe disso.

 

Sentir a energia da plateia

Não raras vezes, Hingridy Kaline, 18 anos, pensou em desistir de participar do concurso. Ela tinha certo pessimismo quanto a suas capacidades e, apesar de esta ter sido sua segunda experiência no concurso, por pouco não seguiu até o fim.

Foi no grupo que ela encontrou forças para não abandonar o barco. “Sei que, trabalhando junto com os meus amigos, eu realmente consigo atingir meu objetivo. Aprendi que nos sentimos bem fazendo o que amamos, e sentir a energia da galera rindo é o principal e o combustível da gente”, comenta.

Kaline foi atriz, cenógrafa e figurinista e interpretou Rebeca, uma ascensorista atrapalhada, carismática e cheia de trejeitos.

Embora trabalhe no centro empresarial, que é o espaço cênico da obra, Rebeca é pouco (ou nada) dedicada e põe-se exclusivamente a jogar palavras cruzadas e lixar as unhas. “Ela é meio louquinha, não liga para nada e dá risada de tudo”, descreve Kaline.

Para acertar na interpretação, Kaline teve de criar uma risada específica, meio aguda e breve. Depois de muitas tentativas com os colegas, acertou na mão:

“No final da apresentação, as pessoas vinham falar comigo imitando a risada dela, então eu soube que tinha acertado”, relembra.

A jovem atriz em formação cursa o primeiro período do curso profissionalizante. Sonha alto e, como seus colegas, quer profissionalizar-se.

Em breve, Kaline desembarca nos Estados Unidos para estudar. Pretende seguir seu grande objetivo por lá mesmo. Good luck, Kaline.

 

‘O primeiro passo foi dado’

Antônio Carlos Pontes, 30 anos, é músico há uma década e meia e há alguns meses aluno do curso profissionalizante de teatro na Hipérion.

Está acostumado com o palco quando se trata de destrinchar acordes e melodias, mas não quando é para fazer caras e bocas diante da plateia.

Para obter experiência prática na área, ingressou na formação. Desconstruiu estereótipos e descobriu na prática o trabalho complexo que é  produzir uma peça: “dá muito mais trabalho do que apenas montar um texto e apresentar”, comenta. 

Seu papel na obra é o do Sr. Wilson, um senhor viciado em trabalho e estressado que divide seu dia com seus problemas cardíacos e uma secretária hipocondríaca com mania de limpeza.

“É um personagem escandaloso e divertido que permite explorar todos os planos e várias vozes durante a cena”, comenta.

Além disso, Pontes foi o dramaturgo de Claustrofobia. Com isso, aprendeu de perto a dinâmica e relações entre direção, maquiagem e cenário.

Mas o que ele destaca, como bagagem adquirida, foi o fato de ter colocado à prova todo seu potencial, que nem ele mesmo conhecia. “Aprendi sobre o próprio potencial uma vez que me coloquei numa competição desse nível”, conta

Agora, Pontes tem um sonho: trabalhar exclusivamente com dublagem. “Sou muito apaixonado pela arte de dar vida a personagens usando a voz”, exprime.

Para isso, no fim deste ano, vai a São Paulo realizar curso na área. Na sequência, volta ao Recife e continua na Hipérion.

Tornar-se dublador profissional é, para ele, “uma longa caminhada”. Mas o primeiro passo foi dado. E com o pé direito. Com a vitória no Experimentart.

Um gás para continuar

Douglas Farias, 24 anos, tem uma história de superação que se desenvolve neste exato momento em que você lê esta matéria. Natural de Vitória de Santo Antão, interior de Pernambuco, iniciou os estudos em fisioterapia logo após terminar o ensino médio, em 2017.

Porém, apaixonado pelas artes, não se identificou com a ciência médica. “A arte começou a falar mais alto dentro de mim”, detalha. Trancou a graduação no terceiro semestre e foi atrás de seu sonho no teatro: “vim morar em Recife pra correr atrás”, diz.

Na peça, além de cenógrafo e figurinista, Farias interpreta Saturno, um típico hippie que, em meio ao clima de desespero do elevador enguiçado, “está ali dentro para vender suas artes e trazer a positividade”.

Ganhar o Experimentart tem um significado especial para o jovem ator em formação. Ele sabe que tem muito para caminhar ainda. Todavia, um prêmio é, para ele, um sinal de que se aproxima de seu sonho.

“Eu com toda certeza fiz a coisa certa. Eu não me arrependo, não, faria tudo de novo. Estudar teatro é libertador. Eu posso ser diversas pessoas. Eu posso colocar emoções em diversos personagens”, diz.

Por isso, só quer sair da Hipérion com o DRT na mão, pronto para entrar no mercado.

“Participar do Experimentart, e ainda vencer, me fez acreditar mais em mim como ator. Me deu um gás de continuar estudando. Foi muito emocionante! Que venham outras edições Experimentart”.

Um grande incentivo

Ana Raquel Rodrigues da Silva é jovem, com 16 anos, mas seu papel foi digno de uma atuação que só os mais traquejados poderiam fazer.

Ela interpretou Clau, uma mulher claustrofóbica, nervosa e desesperada. Para dar vida à personagem, Silva teve de pesquisar a fundo a doença. Um trabalho cansativo, claro, mas cheio de aprendizados e recompensador.

Ela destaca que o comprometimento e o trabalho coletivo como ingredientes essenciais para o resultado.

“Foi uma experiência ótima e de bastante aprendizagem, pois, como precisávamos criar tudo do zero, exigiu bastante de nós como atores”, afirma.

Ela, que passou a estudar na Hipérion em fevereiro deste ano, frequenta o curso profissionalizante, primeiro período. Quer obter o DRT e, como seus colegas, atuar profissionalmente na área.

Para Silva, ganhar o Experimentar foi um “grande incentivo para me dedicar mais”. E que incentivo!

Mais sobre o Experimentart

O Experimentart é um concurso realizado semestralmente pela Hipérion. Ele permite que os alunos montem obras teatrais de forma experimental e vivenciem o palco.

Os inscritos no concurso formam grupos de até seis membros e têm como missão escrever, produzir e encenar um esquete que dure até 12 minutos.

Formadas as equipes, seus integrantes têm o desafio de atuar em pelo menos uma das funções do teatro: ator, diretor, operador de som, dramaturgo ou figurinista, entre outras.

Para isso, cada grupo conta com o apoio técnico e logístico da Hipérion e é auxiliado por um professor.

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