Professora da Hipérion, Clébia Sousa integra elenco de ‘Bacurau’, que concorre à Palma de Ouro em Cannes

Quando recebera a notícia, Clébia de Sousa não sabia como reagir. “Fiquei como que sublimando, tentando entender, sabe?”, relembra ela do momento em que tomou conhecimento de um dos momentos mais importantes de sua carreira.

A atriz e professora de interpretação para cinema e TV na Hipérion integra o elenco de atrizes e atores do filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que foi selecionado para concorrer à tradicional Palma de Ouro em 2019, a badalada premiação de Cannes.

A premiação constitui o objetivo maior de muitos diretores, atrizes, atores e produtores cinematográficos dispersos no mundo todo, de modo que simples fato de concorrer já representa, para muitos, uma revolução na carreira.

 

 

 

“Fiquei impactada porque não era só um filme brasileiro que estava concorrendo, mas também um filme pernambucano, gravado no Sertão! A probabilidade de um filme do tipo chegar ao festival é sempre pequena e causa espanto na gente”, conta Sousa.

Sousa é professora de interpretação  na Hipérion e integra o elenco da obra, cujo enredo gira em torno da cidade homônima, localizada no sertão nordestino. Após a morte de uma figura local muito importante, Bacurau se vê afetada por acontecimentos estranhos. 

“Vai ser um filme muito importante para debater a atual situação do país, essa polaridade política, as questões de poder, a resistência,” destaca ela. No filme, Sousa interpreta Ângela, uma professora da cidade que desempenha papel fundamental na narrativa.

É a segunda vez que Mendonça Filho concorre na premiação. Em 2016, o cineasta pernambucano disputou o troféu com a obra Aquarius

Passa um filme na cabeça

Clébia Sousa nasceu em Limeiro, cidade no interior a 77 km de Recife. Quando adolescente, imitava personagens de suas telenovelas preferidas (as principais, conta ela, eram as mexicanas). Além disso, expansiva e comunicativa, era participante assídua de atividades culturais na escola.

E foi assim que, ainda cedo, se descobrira atriz. Na cidade, iniciou os estudos em teatro e gostou tanto do métier que decidiu tomá-lo como o destino de sua vida.

Em 2009, mudou-se para Recife e iniciou os estudos em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco. E já no segundo ano de estudos, uma chance mudou por completo sua história na profissão.

 

Nas instalações da faculdade, Mendonça Filho realizava um teste de elenco atores para seu filme Um som ao redor (2012). À época, Sousa sabia pouco (ou nada) sobre o diretor, mas decidiu participar, “sem nutrir grandes pretensões”, apenas para adquirir uma bagagem na área.

Meses depois, a notícia: tinha sido escolhida. Com 19 anos, iniciava a carreira profissional com um dos maiores cineastas do país. Para poucos.  

A partir de então, sua carreira deslancha. Encena em mais de 20 produções, entre longas e curtas-metragens. Consolida-se na carreira. Estabelece seu nome no mercado.

Os testes para Bacurau ocorreram em 2016 e selecionaram apenas 60 atores de um grupo de 600. Com um currículo já invejável e trabalho reconhecido pelo diretor, Sousa logo conquistou seu lugar no elenco e iniciou as gravações dois anos mais tarde.

 

Olhando em retrospectiva, ela se surpreende ao se dar conta de que suas imitações de personagens mexicanos a levariam ao cume do cinema: Cannes. “Passa um filme na cabeça. Eu vim do interior. Vindo de onde eu vim, não sendo de família rica, jamais imaginei chegar aonde cheguei”, reflete ela.

Sousa se considera batalhadora e em sua carreira coleciona importantes vitórias. “Fui dando passinho e passinho e construindo meu nome com meu esforço. Orgulho muito da trajetória e das escolhas que fiz”, analisa.

Um exemplo para quem está começando a carreira no teatro? Certamente.

Um é pouco, dois é bom…

Apesar do feito histórico, Sousa não viaja à França para acompanhar o festival. E por um motivo tão bom quanto à notícia envolvendo Bacurau: atualmente, ela trabalha em filme que é produzido em Fortaleza.

Trata-se do filme ‘Fortaleza Hotel’ (dir.: Armando Praça), no qual ela é a atriz protagonista. Curiosidade: ela soube que tinha conquistado justamente quando tomou conhecimento de que o filme de Mendonça Filho havia sido selecionado.

Dois raios desse tipo todos atores querem que caiam em suas cabeças. “Eu fiquei sem reação, me perguntando, surpresa: o que está acontecendo na minha vida?”, conta ela.

“Adoraria muito estar com os companheiros de elenco, mas também estou igualmente feliz por ser protagonista de um filme tão bonito”, considera.

Respirar teatro

A história de Sousa a torna um modelo para quem está começando a carreira no teatro. Ela venceu as “bolhas”, como costuma nomear, que existem no campo artístico e passou a ser vista no mercado.

Aos alunos de interpretação da Hipérion, ela dá três conselhos: “não se julgue, mantenha o pé no chão e se dedique e estude”.

Para ela, a prática faz a perfeição. E por isso respirar teatro é a melhor saída. “Leia muito. Vá assistir a filmes, peças. Preste atenção nas pessoas a seu redor e tire delas ideias para personagens, características, cenas”.

Licenciada da escola por causa do trabalho em Fortaleza, Sousa volta a dar aulas em junho. E, entre mensagens e áudios de WhatsApp, os alunos contam os dias para rever a professora e absorver ensinamentos daquela que é para eles um exemplo de que é possível, sim, ir longe no teatro. 

 

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